N.R.P. Mandovi (1946-1956)

N.R.P. Mandovi (1946-1956)
N.R.P. Mandovi

Construído no Arsenal da Marinha, em Lisboa, navegou como canhoneira desde 1918.

Transformado em navio hidrográfico em 1946, deslocava 500 toneladas e tinha uma guarnição de 38 homens.

Esteve ao serviço da Missão Hidrográfica da Guiné.

 

Fonte: Teixeira da Silva, Reis Arenga, Silva Ribeiro, Santos Serafim, Alburquerque e Silva e Melo e Sousa. “A Marinha na Investigação do Mar. 1800-1999”. Instituto Hidrográfico, Lisboa 2001.

O Mandovi era uma canhoneira da classe “Beira” construída no Arsenal da Marinha, em Lisboa, lançada à água em 8 de Junho de 1918 e aumentada ao Efetivo dos Navios da Armada a 19 desse mês.

Possuía as seguintes características:

Deslocamento máximo....................................492 toneladas

Comprimento (fora a fora) .............................44,80 metros

Boca....................................................................8,30 “

Calado ...............................................................2,10 “

Velocidade ........................................................13 nós

Dispunha de duas máquinas alternativas de tríplice expansão com a potência de 700 cavalos e duas caldeiras cilíndricas Yarrow, utilizando carvão como combustível.

Estava armada com duas peças Armstrong de 75 mm, duas de 47 mm e duas metralhadoras Nordenfelt. A sua lotação inicial era de 67 homens. Enquanto canhoneira, além de ter prestado, maioritariamente, apoio à fiscalização da pesca na costa continental portuguesa, durante os nos anos de 1919 e 1920 fez várias comissões aos Açores.

Em Outubro de 1946 foi classificada como Navio Hidrográfico, após o que recebeu algumas transformações e equipamentos, ficando no início de 1948 pronta para desempenhar missões no âmbito de Missão Geo-hidrográfica da Guiné. A Guiné constitui um território com uma orografia muito peculiar, atravessado por uma profusa rede de rios e canais, o que aconselhava à subordinação dos trabalhos de hidrografia e geodesia sob uma direção única, o que veio a suceder, após perto de três décadas de paragem dos trabalhos de hidrografia, com a constituição, em 14 de Abril de 1944, a Missão Geo-hidrografia da Guiné.

Coube ao então Primeiro-tenente Manuel Pereira Crespo a incumbência de chefiar a Missão e, algum tempo depois, o comando do Mandovi, tendo sido o seu único comandante enquanto navio hidrográfico. No seu livro “Trabalhos da Missão Geo-hidrográfica da Guiné (1948-1955)”, publicado em 1955 pelo Centro de Estudos da Guiné Portuguesa, o Comandante Crespo refere-se ao Mandovi como sendo um navio cuidadosamente preparado e adaptado para o serviço hidrográfico que desde há sete anos opera ininterruptamente nas águas da Guiné. Em virtude das dificuldades do Ministério da Marinha em dispensar pessoal, a guarnição do Mandovi encontrava-se reduzida ao estritamente indispensável, apoiando-se a Missão no recrutamento de nativos, maioritariamente de etnia Manjaca, para funções auxiliares.

Entre os trabalhos em que o navio participou desde Fevereiro de 1948, data da sua chegada a Bissau, destaque-se os levantamentos hidrográficos que cobriram toda a área costeira da Guiné, barras e entradas dos principais portos, rios e canais navegáveis, correspondendo à publicação de seis cartas náuticas à escala 1:80.000. Foram ainda produzidos planos hidrográficos, em várias escalas, referentes aos portos de Bissau, Bubaque, Bolama, rio Cacheu, rio Grande de Buba, canal do Geba e baías de Caió, Injante e Escaramuça. Durante o mesmo período foi também efetuado o levantamento cartográfico de todo o território através de processos aéreofotogramétricos realizados pela Aviação Naval.

Ainda, na obra atrás citada, o Comandante Crespo refere as dificuldades que enfrentaram para levar a bom termo a sua missão na Guiné: A geodesia e os levantamentos topográficos e hidrográficos da Guiné sempre foram considerados como problemas técnicos de difícil solução.

A geodesia e a cartografia teriam de ser executadas numa região quase plana, coberta de densa e alta vegetação, cruzada por numerosos cursos de água e com uma zona insular de algumas centenas de ilhas e ilhéus. A hidrografia parecia reunir todas as circunstâncias desfavoráveis a um trabalho cómodo e agradável: profundidades muito pequenas e distribuídas irregularmente nos canais, nos rios e ao largo da costa marítima; correntes de marés muito fortes; marés variando rapidamente em tempo e em amplitude; dificuldade de operar o navio hidrográfico, com relativa segurança; margens difíceis de sinalizar e com grandes zonas de lodo que dificultavam o desembarque do material e do pessoal; má visibilidade; más condições de mar para sondar em pequenas embarcações. Nestes últimos sete anos concluiu-se praticamente toda a geodesia; realizou-se mais de metade da hidrografia, abrangendo todas as zonas que interessam à navegação que presentemente escala os portos da Província; concluíram-se 30 folhas da carta topográfica. E conclui: O levantamento Geo-hidrográfico da Guiné Portuguesa é, em última análise, mais um serviço da Armada Nacional no Ultramar Português.

O trabalho então concretizado foi de extrema importância para a atualização da informação, uma vez que a mesma vinha sendo feito por entidades estrangeiras e limitava-se a reproduzir informações desatualizadas, sendo motivo de inúmeros acidentes marítimos que originavam o encalhe e não raras vezes a irremediável perda de navios.

Ao N.H. Mandovi e à própria Missão, encontra-se associado de forma indelével o nome do Comandante Manuel Pereira Crespo. Em 1956, sob a sua chefia, as atividades hidrográficas realizadas pela Missão Geo-hidrográfica da Guiné adquiriram tal amplitude e importância que levaram o Governo Francês a condecorá-lo com o grau de Oficial da Ordem da Legião de Honra.

Em 5 de Dezembro de 1956 o N.H. Mandovi, após oito anos de valiosos trabalhos, que viriam a revelar-se de enorme utilidade no planeamento de operações militares ocorridas na Guiné entre 1963/74, foi abatido ao Efetivo dos Navios da Armada.

Fonte: Revista da Armada, n.º 460, Fevereiro 2012.