N.R.P. General Silvério (1904-1908)

N.R.P. General Silvério (1904-1908)
N.R.P. General Silvério Rebocador da província de Moçambique que em 1904 passou ao serviço da Marinha de Guerra para trabalhos hidrográficos.

Possuía uma guarnição de 15 homens. Neste ano realizou uma missão hidrográfica em Quelimane. Após múltiplas missões
em Moçambique, a 18 de Maio de 1908 já não oferecia fiabilidade para continuar os trabalhos hidrográficos, terminando neste ano os seus préstimos à hidrografia.

 

Fonte: Teixeira da Silva, Reis Arenga, Silva Ribeiro, Santos Serafim, Alburquerque e Silva e Melo e Sousa. “A Marinha na Investigação do Mar. 1800-1999”. Instituto Hidrográfico, Lisboa 2001.
N.R.P. General Silvério

Ao tempo em que na Costa de Portugal os trabalhos oceanográficos se realizavam com recurso aos iates “Amélia” havia necessidade de igualmente se proceder a estudos hidrográficos nos territórios ultramarinos pelo que era imprescindível, a fim de evitar demoradas deslocações, dispor para o efeito de meios navais ali regularmente localizados.

Em 1 de Junho de 1904 o vapor “General Silvério”, que se encontrava em funções no âmbito da Repartição das Obras Públicas de Lourenço Marques, passou ao serviço da Marinha para a realização de trabalhos hidrográficos. Tratava-se de um navio que tinha participado nos trabalhos de construção do Farol de Cockburn, situado na baía do porto de Lourenço Marques e inaugurado em 1 de Janeiro de 1901.

Deve o vapor “General Silvério” o seu nome ao ilustre Engenheiro Silvério Augusto Pereira da Silva, nascido em Lisboa a 3 de Janeiro de 1827 que, entre outras funções, foi director das obras da Barra de Aveiro. Pertencia à Arma de Engenharia, tendo desenvolvido uma intensa actividade no domínio das obras hidráulicas, construção de estradas, pontes e caminhos-de-ferro, tendo sido o primeiro engenheiro português a aplicar o betão na construção dos arcos das pontes. A ele se deve a edificação da Capela de Nossa Senhora dos Navegantes, no Forte da Barra da Gafanha da Nazaré, Concelho de Ílhavo. Em 1897, foi promovido a General de Divisão e, no ano seguinte, dispensado temporariamente do serviço a fim de prestar uma comissão de serviço no Ministério da Marinha. Faleceu em Lisboa a 5 de Abril de 1910.

De acordo com documentação avulsa existente no Arquivo Histórico Geral de Marinha: Em Março de 1904 determinou S. Exª o Ministro em destacar 3 officiaes da Divisão Naval do Índico para bordo do vapor “General Silvério”, para os estudos acima mencionados, passando à Divisão Naval aquelle vapôr, que então passaria a fazer serviço na Província de Moçambique. Estes officiaes continuariam a vencer todos os abonos e a contar tirocínio, como se prestassem à divisão, além da gratificação que pela província lhes era abonada.

Em nota recebida pela Majoria General da Armada em 26 de Maio de 1904, a Direcção Geral da Marinha transmitiu o seguinte: Comunica-se que S. Excia o Ministro em seu despacho de 25 do corrente, determinou que o vapor General Silvério seja considerado pertencente à Divisão Naval do Índico durante todo o tempo que estiver no serviço hydrographico de Quelimane, legalisando assim a contagem do tempo de serviço dos oficiaes e praças da guarnição, e facilitando o (…) dos fornecimentos de bordo, devendo ser nomeado pelo Commandante da Divisão Naval o primeiro tenente Jaime Aurélio Wills d’Araujo, chefe da Missão, Commandante do mesmo navio. Finda a Commissão de hydrographia deve passar o vapor novamente à Província.

Os trabalhos de hidrografia a bordo do vapor exigiam da parte do pessoal da Missão redobrados sacrifícios e exigências. Em 10 de Setembro de 1904, o seu Comandante enviou ao Comando da Esquadrilha do Zambeze uma nota na qual dava conta do seguinte: N’este navio, onde o serviço é bastante e especial como por exemplo para as praças o das observações de marés, convém (…) que não só saibam ler e escrever como sejam (…) de 1ª ou 2ª classe de comportamento…

Neste navio esteve embarcado desde 6 de Julho de 1904 o então 2º tenente Sacadura Cabral, um dos pioneiros da Aviação Portuguesa, que assumiu o comando do vapor em 6 de Junho de 1905. Também o 1º tenente Almeida Carvalho apresentou-se a bordo em 3 de Julho, tendo mais tarde, nos anos cinquenta, sido dado o seu nome a um navio hidrográfico da Armada.

Apesar de se encontrar ao serviço da Marinha desde Março de 1904, a situação do navio permaneceu de certo modo indefinida até que em 8 de Outubro de 1906 o seu Comandante dirigiu-se ao Comandante da Divisão Naval do Índico, nos seguintes termos: O Comandante e os dois tenentes (constantes das partes semanaes) da guarnição d’este vapor, apresentaram-se na Secretaria Militar do Governo do Distrito de Quelimane após o conhecimento do decreto em que os transferiam para o serviço do Ultramar. O Commandante foi por decreto exonerado do comando do Berrio a fim de desempenhar o logar de chefe da missão hydrographica de Quelimane ou melhor, da missão de estudos da barra rio e porto de Quelimane sendo por determinação de Sua Excellência o Ministro nomeado para o comando do vapor Silverio. Os dois tenentes apresentaram-se no vapor com guia da Divisão Naval e por determinação superior foram dados egualmente ao serviço da missão. O vapor que estava abandonado em Inhambane, armou-se por conta e despesa da Província expressamente para este serviço da missão, sendo a Divisão Naval quem tem fornecido o destacamento de marinha que tem tripulado o mesmo vapor. Parece que nunca ficou defenido se o navio estava incorporado nas forças da Divisão Naval, ou se declaradamente era um navio dependente da Província, onde expressamente tem prestado serviço e para cujofim armou, ficando apenas dependente da Divisão o fornecimento e disciplina do pessoal que o guarnece. Depois de pôr em evidencia estes factos e notando que o destacamento do Corpo de Marinheiros continua sob a imediata dependência da Divisão, pede este commando lhe seja defenida a sua situação perante a Divisão, e dos tenentes e a relação entre elles e o commandante com as praças sobo ponto de vista disciplinar e outros que se prendem com esta situação anormal. Este pedido mereceu da parte do Comando da Divisão Naval do Índico o seguinte despacho: Está conforme. Como navio hidrográfico, o “General Silvério” foi utilizado sobretudo na região de Quelimane. Iniciou a sua actividade hidrográfica em 19 de Junho de 1904, tendo largado desta localidade, feito escala na Ilha Pequena e no baixo Nilha e regressado a 1 de Julho. Continuou a prestar apoio à Missão Hidrográfica de Quelimane até 18 de Maio de 1908, data em que se considerou não reunir condições para continuar a ser utilizado nos trabalhos hidrográficos.

Apesar de terem existido antes outros navios que foram utilizados na realização de trabalhos hidrográficos nos territórios ultramarinos, como sucedeu com a canhoneira “Tavira” ou o vapor “Salvador Correia”, foi o “General Silvério” o primeiro navio a ser devidamente equipado com a finalidade de prestar apoio às missões hidrográficas.

Fonte: Revista da Armada, n.º 456, Setembro/Outubro 2011.