N.R.P. Amélia [IV] (1901-1911)

N.R.P. Amélia [IV] (1901-1911)
N.R.P. Amélia [QUARTO]

Construído em Leith, Escócia, em 1900, foi adquirido em 1901 pelo Rei D. Carlos I em troca do anterior «Amélia».

Chegou a Cascais em 2 de Novembro de 1901. Com casco em aço, um comprimento de 70,1 metros e um deslocamento de 1370 toneladas, atingia uma velocidade de 14 nós. Era guarnecido por 74 homens, tinha seis embarcações, sendo uma a vapor e outra movida a electricidade. Tinha todos os apetrechos necessários aos trabalhos oceanográficos. Em 1911, em consequência da implantação da República, foi rebaptizado com o nome de «Cinco de Outubro».

Fonte: Teixeira da Silva, Reis Arenga, Silva Ribeiro, Santos Serafim, Alburquerque e Silva e Melo e Sousa. “A Marinha na Investigação do Mar. 1800-1999”. Instituto Hidrográfico, Lisboa 2001.

Iate Real Amélia III

Originalmente denominado “Ranshee”, foi construído em 1899 nos estaleiros “Ramage and Ferguson”, em Leith, na Escócia, de acordo com os planos de um cruzador inglês de 2ª classe. Adquirido por Portugal, chegou a Lisboa em 2 de Novembro de 1901 para substituir o iate “Amélia III”, em trabalhos oceanográficos e igualmente servir de iate real.

Tratava-se de um navio com casco em aço de duplo fundo, apresentando as seguintes características:

Deslocamento máximo ................................................1.370 toneladas

Comprimento fora a fora ........................................... 71,40 metros

Boca ............................................................................................8,80 “

Calado .......................................................................................4,62 “

Velocidade.................................................................................15 nós

Possuía duas máquinas alternativas de três cilindros de tríplice expansão de 1.800 HP, e duas caldeiras que trabalhavam à pressão de 180 psi. Dispunha também de uma máquina de gelo, o que constituía novidade para a época.

Largou de Lisboa, pela primeira vez com guarnição portuguesa, em 6 de Novembro de 1901.

Na qualidade de iate real o “Amélia IV” fundeou várias vezes em Cascais e praticou o porto de Setúbal, especialmente para visitas ao Sanatório do Outão. Em 1903 escalou portos espanhóis e franceses do Mediterrâneo. Nesse ano e nos seguintes até 1907 fundeou em Lagos a fim de D. Carlos receber cumprimentos da esquadra inglesa que habitualmente ali terminava as suas manobras de Verão. De registar a ida a Génova, em Março de 1906 e Janeiro de 1907, para transportar material destinado à Exposição Mundial de Milão e em Março, com a Rainha e os dois Príncipes a bordo, numa visita a Sevilha.

No que respeita a trabalhos científicos, um dos principais objectivos das observações e das campanhas oceanográficas foram os estudos ictiológicos. Após as campanhas realizadas nos últimos anos do século XIX no Algarve, que se reportaram ao conhecimento do atum, seguiu-se, em 1902, o estudo da sardinha, por se recear que o início da actividade da pesca de arrasto a vapor provocasse a sua escassez. Relativamente à falta da sardinha o Rei deu uma entrevista ao jornal francês “Petit Parisien”, em Fevereiro de 1903, já que este fenómeno era sentido em águas francesas.

Em 1902 o “Amélia IV” efectuou em Maio sondagens em Setúbal, em Junho arrasto em Sesimbra, sondagens e arrasto em Albufeira em Julho e uma Campanha Oceanográfica no Algarve em Agosto. Em Junho e Julho de 1903 fez observações em Sesimbra e Setúbal, maioritariamente actividade piscatória, observações que se repetiram em 1904 nos meses de Verão em Sesimbra, Cabo Raso e Sagres.

Depois do atum e da sardinha os estudos dedicaram-se aos tubarões, tendo em 1904 o Rei publicado “Os esqualos obtidos nas costas de Portugal durante as Campanhas de 1896 a 1903”. Foram efectuadas em 1905 sondagens em Sesimbra e nesse ano D. Carlos iniciou elaboração de uma carta com todas as sondagens conhecidas até 60 milhas da costa e a ser apresentada na escala 1/100.000.

N.R.P. Amélia [QUARTO]A partir de 1906, com o sensível agravamento da situação política, o Rei limitou os seus embarques e deste modo realizou apenas uma observação oceanográfica em Junho a Sesimbra e somente quatro em 1907, ao largo do cabo Espichel.

Em 6 de Outubro de 1907, por altura da realização de uma regata de vela, o Rei esteve pela última vez a bordo. Decorridos três meses, em 1 de Fevereiro de 1908, era assassinado no Terreiro do Paço quando regressava de Vila Viçosa. D. Carlos o Monarca Sábio, no dizer do Príncipe Alberto I do Mónaco, ficará na História como o Pai da Oceanografia Portuguesa. Uma homenagem que perdura à sua obra é a inclusão do nome “Amélia” entre os mais famosos navios da era da exploração que decoram o frontal do Museu Oceanográfico do Mónaco. Ainda nesse ano de 1908, em Agosto, D. Manuel II e sua mãe embarcaram indo até ao cabo Raso e a Outão. Foi esta a última viagem do “Amélia IV” como iate real.

A revolta do 5 de Outubro veio a surpreender o navio fundeado frente à Junqueira, que para não ser tomado pelos revoltosos foi fundear a Cascais e posteriormente transportou a Família Real da Ericeira para Gibraltar.

Em 12 de Setembro de 1911 passou a ser classificado como aviso de esquadra e rebaptizado com o nome de N.R.P. “Cinco de Outubro”. Saiu para o mar a 28 de Setembro e até Dezembro de 1912 cumpriu missões no Continente e na Madeira, tendo a partir de Janeiro de 1913 e até à data do seu abate dedicado-se, prioritariamente, ao serviço da hidrografia.

Em Março de 1913 largou para trabalhos hidrográficos. Fazendo parte da Missão Hidrográfica da Costa de Portugal participou nos levantamentos destinados a actualizar os planos hidrográficos da costa marítima portuguesa e a oceanografia do mar adjacente e ainda efectuou campanhas nos Arquipélagos da Madeira e Açores. Pelo seu comando passaram, entre outros, os capitães de fragata Hugo de Lacerda e Almeida Carvalho cujos nomes viriam, algumas décadas mais tarde, a ser atribuídos a navios hidrográficos.

Em 11 de Março de 1930 foi abatido como aviso e passou a navio hidrográfico mantendo contudo o mesmo nome. De Dezembro desse ano a Fevereiro de 1936, foi comandado pelo então 1º Tenente Américo Thomaz que viria a ser Ministro da Marinha e, mais tarde, Presidente da República.

Largou para o Funchal em Junho de 1936 a fim de iniciar a Campanha Hidrográfica da Madeira e dos Açores mas regressou a Lisboa em Outubro, sem ter completado a missão, devido ao seu mau estado de conservação. Em 14 de Janeiro de 1938 foi abatido ao efectivo um navio que participou em acontecimentos relevantes da História Contemporânea Portuguesa. Terminou a sua vida sob a designação de N.R.P. “Cinco de Outubro” mas foi por ventura aquele que mais serviços prestou à hidrografia nacional de entre os quatro iates que ostentaram o nome “Amélia”, evocando o notável contributo que o Rei D. Carlos prestou ao estudo e à investigação das ciências do mar.

 

Fonte: Revista da Armada, n.º 455, Agosto 2011.