N.R.P. Almirante Lacerda (A 525) (1946-1975)

N.R.P. Almirante Lacerda (A 525) (1946-1975)
N.R.P. Almirante Lacerda

Este navio, construído no Canadá em 1941, esteve inicialmente ao serviço da Armada Britânica, como draga-minas.

Foi o primeiro navio da Armada Portuguesa a ser equipado com radar. Possuía um deslocamento de 876 toneladas e era guarnecido por 90 homens.

Esteve ao serviço da Missão Hidrográfica de Moçambique, onde participou em três campanhas, entre 1964 e 1966, na Expedição Internacional ao Oceano Indico.

Fonte: Teixeira da Silva, Reis Arenga, Silva Ribeiro, Santos Serafim, Alburquerque e Silva e Melo e Sousa. “A Marinha na Investigação do Mar. 1800-1999”. Instituto Hidrográfico, Lisboa 2001.

O N.H. Almirante Lacerda era o ex-navio lança-minas Caraquet da Marinha do Canadá, construído em estaleiros daquele país e lançado à água em 24 de agosto de 1941. Pertencente à classe “Bangor,” foi adquirido em 1946 pelo Governo Português, transformado no Arsenal do Alfeite em navio hidrográfico e aumentado ao Efetivo dos Navios da Armada em 20 de junho de 1946. Destinado às atividades hidrográficas em Moçambique, tomou o nome de um dos mais ilustres hidrógrafos da Marinha Portuguesa, o Vice-almirante Hugo de Carvalho Lacerda Castelo Branco, que se notabilizou em Moçambique onde, entre outros cargos, foi Inspetor de Obras Públicas, tendo organizado os serviços do porto de Lourenço Marques e criado, posteriormente, a Missão Hidrográfica da Costa de Portugal.

Foi o primeiro navio da Armada Portuguesa a utilizar o radar e apresentava as seguintes características:

Deslocamento máximo....................................900 toneladas

Comprimento (fora a fora) .............................54,9 metros

Boca....................................................................8,7 “

Calado ...............................................................2,9 “

Velocidade ........................................................16 nós

Propulsionado por duas máquinas alternativas de tríplice expansão com uma potência de 2.400 cavalos, estava armado com 1 peça de 76 mm e 2 de 20 mm. A sua guarnição era constituída por 49 homens (7 oficiais e 42 sargentos e praças) Em 1947 fez a viagem para Moçambique via Suez, com uma guarnição reduzida, comandada pelo 1º tenente Alves Leite. Uma vez chegado a Lourenço Marques foi atribuído à Missão Hidrográfica de Moçambique, sendo a sua guarnição completada com marinheiros ultramarinos, termo então usualmente empregue para designar os militares nativos.

A guarnição do navio participou no levantamento hidrográfico do Lago Niassa realizado em 1955, após ter sido reconhecido a Portugal o direito de soberania naquela região de fronteira e ainda da costa do Cobué e das Ilhas Licoma e Chisumulo. A partir de 1960, com a criação do Instituto Hidrográfico em 22 de setembro daquele ano, a atividade hidrográfica intensificou-se e assim efetuaram-se levantamentos em toda a costa moçambicana incluindo, entre outros, as baías e portos de Lourenço Marques e de Bartolomeu Dias, a barra e porto de Inhambane, os portos do Chinde, Quelimane, António Enes, Beira, o arquipélago das Quirimbas, os baixos de Inhaca e os canais de Macúti, Polana e Xefina.

O jornal “Diário de Lisboa”, na sua edição de 4 de dezembro de 1964, publicou uma pequena notícia com o título Entrou hoje em Lourenço Marques o maior cargueiro do Mundo. Este acontecimento estava diretamente relacionado com os trabalhos hidrográficos realizados pela Missão Hidrográfica de Moçambique, com o indispensável apoio do N.H. Almirante Lacerda, os quais possibilitaram a construção dos canais de acesso ao porto de Lourenço Marques. Aliás, o mesmo jornal,publicou, no dia 12 de dezembro daquele ano, um extenso artigo com o título A tarefa da Hidrografia permitiu conduzir os trabalhos que abriram aos grandes navios a entrada no porto de Lourenço Marques, no qual, a dado passo, refere o seguinte: O navio hidrográfico “Almirante Lacerda” foi o “quartel-general científico” onde sucessivas missões hidrográficas e, por último, o Sr. Comandante Rosa Coutinho, desenvolveram brilhante trabalho que permitiu orientar a tarefa final das dragagens.

Não obstante os numerosos trabalhos hidrográficos em que esteve envolvido, a sua participação na Expedição Internacional ao Oceano Índico em 1964, foi porventura a mais relevante visto se ter tratado de um notável acontecimento que contou com a participação de perto de 50 navios oriundos de 30 países e que constituiu um marco histórico no desenvolvimento da moderna oceanografia. O N.H. Almirante Lacerda foi então equipado com diverso material oceanográfico, tendo-lhe sido atribuído a realização de diversos cruzeiros destinados a efetuar, entre outros trabalhos, colheitas de amostras de fundo, registo de temperatura de água a várias profundidades, colheita de amostras de plâncton, observações dos fenómenos de turbulência, coloração das águas, bioluminescência, mortalidade de peixe e frequência de aves marinhas.

Descreveu o jornal “Diário de Moçambique”, na sua edição de 22 de Abril de 1964, a participação do N.H.Almirante Lacerda na Expedição Internacional ao Oceano Índico: O navio hidrográfico “Almirante Lacerda”, que desde 1947 executa trabalhos de hidrografia nas costas e portos de Moçambique, encontra-se neste momento cumprindo o seu primeiro cruzeiro dentro do plano de trabalhos da Expedição, ao longo do canal de Moçambique. Para o efeito, foi apetrechado em 1962 e 1963 com diverso material oceanográfico, que lhe permitirá realizar um extenso programa de trabalhos estabelecidos pela Comissão Nacional Portuguesa para a Investigação Oceanográfica e relacionado com os programas dos outros países que tomam parte na Expedição, conforme foi acordado na Reunião Regional que para o efeito, se efetuou em Lourenço Marques em Maio de 1962.

O navio, que é comandado pelo capitão-tenente engenheiro hidrógrafo António de Sousa Leitão, tem de guarnição 6 oficiais, 8 sargentos e 82 praças, cerca de metade originários de Moçambique. Toma também parte nos cruzeiros, encontrando-se presentemente a bordo, o Dr. António de Freitas, do Instituto de Investigação Científica de Moçambique, que orientará a parte respeitante à Biologia Marítima.

Em junho de 1975, quando da independência do território, foi transferido para a Marinha da República de Moçambique o N.H. Almirante Lacerda, que desde 1947 vinha realizando valiosos trabalhos hidrográficos nas costas e portos moçambicanos.

Fonte: Revista da Armada, n.º 462, Abril 2012.