Amélia [III] (1899-1901)

Amélia [III] (1899-1901)
Amélia [TERCEIRO]

Foi construído em Inglaterra em 1898 onde se denominava «Yacona». Adquirido em 1899 pelo Rei D. Carlos I O seu casco era em aço, deslocava 650 toneladas e tinha uma guarnição de 36 homens, incluindo três oficiais de marinha, um médico e um naturalista, O seu comprimento era de 54,86 metros, calava 4 metros e atingia urna velocidade de 13 nós. Participou em diversas campanhas oceanográficas dirigidas pelo Rei D. Carlos I, com a colaboração de oficiais da Armada. Em 1901 foi trocado pelo iate «Banshee» que viria para Portugal receber o nome de «Amélia» (Quarto).

Fonte: Teixeira da Silva, Reis Arenga, Silva Ribeiro, Santos Serafim, Alburquerque e Silva e Melo e Sousa. “A Marinha na Investigação do Mar. 1800-1999”. Instituto Hidrográfico, Lisboa 2001.


Iate Real Amélia III

A preocupação do Rei D. Carlos I em dotar a investigação oceanográfica dos meios necessários, levou à aquisição de um novo iate, em troca do anterior, o “Amélia II”. A escolha desta vez recaiu no iate “Yacona”, construído em 1898 nos estaleiros ingleses John Scott and Co de Kingshorn.

A embarcação deu entrada no Rio Tejo em 17 de Abril de 1899 e foi atracar em Paço de Arcos junto ao seu antecessor. Por portaria de 27 do mesmo mês o iate “Amélia III” foi considerado para todos os efeitos como navio da Armada Portuguesa tripulado por oficiais de Marinha da Casa Militar de El- -Rei e ficando a antiga tripulação daquele navio considerada adida ao Corpo de Marinheiros. Passou assim, pela primeira vez, um iate real propriedade pessoal do Rei para navio de Estado.

Considerado muito elegante devido ao caimento da popa e da proa, possuía velas de proa e latinos largos em dois mastros, podendo no traquete armar um redondo.

Construído em aço, apresentava as seguintes características:

Deslocamento máximo .........................................650 toneladas

Comprimento (fora a fora) ......................................54,86 metros

Calado: AV ..................................................................2,60 “

AR .................................................................4,08 “

Velocidade ..................................................................13 nós

Dispunha de uma máquina, de tríplice expansão vertical de 3 cilindros, de 950 Hp e um dínamo de 85 volts e 46 amperes com 300 rotações. Sempre que o dínamo não trabalhava a iluminação eléctrica era garantida por 35 acumuladores, enquanto o funcionamento do motor, de piano eléctrico, era assegurado por 6 outros acumuladores que forneciam um potencial de 12 volts e uma corrente de 3 amperes. O hélice tinha quatro pás.

Com vista à investigação oceanográfica, o iate foi apetrechado de equipamento para sondagem hidrográfica, medição de temperaturas, densidades, transparência, correntes, colheitas de amostras de água e sedimentos, pescas diversas incluindo a pelágica e ainda para captura de espécies marinhas. Tratava-se, em grande medida, de equipamento bastante avançado para a época como o prumo Lucas para grandes profundidades, de peso perdido e fixo, termómetro Chabaud, de precisão, termómetros de inversão de Negretti, Zambra e Chabaud, densímetro Buchanan, garrafas e flutuadores Mitchell.

Uma das particularidades que se verificava na época era a existência a bordo de algum armamento, parte do qual se destinava à captura de espécies ornitológicas. Neste âmbito, existiam duas peças Hotchkiss de 47 milímetros, duas para tiro de chumbo de carregar pela culatra e uma arma porta-arpão, para além de diversas carabinas e espingardas de caça.

A guarnição inicial era de 36 homens incluindo três oficiais de Marinha, um médico e um naturalista, lugar que desde a primeira campanha era ocupado por Albert Giscard, o principal conselheiro do Rei para assuntos oceanográficos.

A primeira viagem foi ao Algarve com largada a 3 de Maio de 1899, para o Rei e seus convidados assistirem ao copejo do atum. Ainda nesse mês fez observações oceanográficas na área do Cabo Espichel e Sesimbra rumando depois para sul a fim de realizar a Campanha Oceanográfica no Algarve, onde efectuou observações na área de Faro a Vila Real de Santo António, as quais incluíram o lançamento de garrafas Mitchell para determinação da direcção da corrente. No Algarve a prioridade foi para o estudo do atum, tendo sido obtidos dados sobre correntes, temperaturas e transparência da água, a fim de se poderem conhecer a razão de mais ou menos abundância desse peixe e compreender o regime que seguia. Com tal objectivo o Rei assistia de perto ao copejo do atum. O estudo exaustivo do atum, incluindo as condicionantes da sua captura, levou D. Carlos a publicar em 1899 a obra “A Pesca do Atum no Algarve em 1898” que constituiu a sua primeira monografia científica.

Durante o mês de Agosto daquele ano efectuou observações na Baía de Cascais e em Sesimbra, tendo em ambos os casos realizado sondagens e largado o arrasto. De Novembro a Maio do ano seguinte o navio esteve em fabricos, reatando as observações oceanográficas na área do Cabo Espichel, Sesimbra e Baía de Cascais de Junho a Agosto de 1900. De salientar que foi ainda a bordo do iate “Amélia III” que, em 2 de Junho de 1900, foi pela primeira vez testado o prumo de Lord Kelvin, em 20 braças ao largo do Cabo Espichel. Também sondagens e pescas de arrasto foram efectuadas em Junho de 1901 na Costa da Galé.

Para além das campanhas oceanográficas, este iate foi bastante utilizado pela Família Real, nomeadamente em passeios, acontecimentos sociais e protocolares como as inaugurações do Sanatório do Outão (06JUL1900) e da estátua do Infante D. Henrique no Porto (21OUT), e a recepção ao Príncipe do Mónaco (FEV1901). Em 18 de Junho de 1901 o navio zarpou rumo ao Funchal, no âmbito de uma visita da Família Real aos arquipélagos da Madeira e dos Açores que durou praticamente dois meses. Levando a bordo diversas individualidades escalou Porto Santo, Funchal, Vila do Porto , Horta, Santa Cruz da Graciosa, Praia da Vitória, Angra e Ponta Delgada.

Contando com a presença a bordo do Rei D. Carlos, o “Amélia III” participou nas manobras navais realizadas em 22 de Agosto de 1901, que incluíram exercícios de desembarque e simulação de ataque dos torpedeiros à esquadra. Na ocasião, em Lagos, entrou em contacto com a esquadra inglesa do Mediterrâneo e com a do Canal, tendo o encontro proporcionado uma confraternização entre aliados que incluiu a celebração de uma missa campal na qual, além das guarnições dos navios portugueses, participaram os católicos que integravam a esquadra inglesa, calculados em cerca de oitocentos homens.

Entretanto, à semelhança do que se verificara em relação aos anteriores iates, também este foi substituído. Em Novembro de 1901, atracava em Lisboa o iate “Ranshee” e a 6 de Novembro o “Amélia III” era abatido ao efectivo.

Fonte: Revista da Armada, n.º 454, Julho 2011.