Amélia [I] (1888-1897)

Amélia [I] (1888-1897)
Amélia [PRIMEIRO]

Construído em Preston, Inglaterra, em 1878, foi adquirido pelo Rei D. Carlos I em 1888, chegando a Cascais em 3 de Setembro deste ano. O seu casco era de ferro, possuía um comprimento de 33,84 metros, deslocava 147 toneladas e atingia uma velocidade de 10 nós. Tinha três embarcações e vários apetrechos para os estudos oceanográficos a que o monarca se dedicava. Em 1897 foi trocado pelo «Geraldine», o segundo iate «Amélia».

Fonte: Teixeira da Silva, Reis Arenga, Silva Ribeiro, Santos Serafim, Alburquerque e Silva e Melo e Sousa. “A Marinha na Investigação do Mar. 1800-1999”. Instituto Hidrográfico, Lisboa 2001.


O Iate Real Amélia

Na segunda metade do século XIX o interesse pelos assuntos do mar teve na Europa um extraordinário desenvolvimento. A par das questões científicas importava então resolver as de âmbito prático e humanitário, especialmente as respeitantes à sobrevivência dos náufragos e à previsão das intempéries, de modo a permitir uma melhor segurança na navegação. Iniciava-se a denominada Era de Exploração que continuaria pelo século seguinte.

Em Portugal reinava D. Luís, o rei marinheiro, que naturalmente apoiava todas as iniciativas respeitantes ao mar, inclusive algumas campanhas oceanográficas feitas nas costas nacionais por navios estrangeiros. De salientar as campanhas realizadas pelo Príncipe Alberto do Mónaco, personalidade que se considera ter motivado o príncipe herdeiro D. Carlos a seguir-lhe o exemplo.

Assim, D. Carlos, em 1888, adquiriu um iate, o ex-Ossian, ex-Dava e ex-Mast, construído dez anos antes nos estaleiros ingleses Allsup & Son, em Preston.

A embarcação, em ferro e com três mastros, tomou o nome de Amélia em homenagem à Rainha, foi classificada iate real e chegou a Lisboa em Agosto de 1888.

Apresentava as seguintes características:

Deslocamento máximo ....................................148 toneladas

Comprimento (fora a fora) ..................................33,85 metros

Boca ......................................................................5,19 ‘‘

Pontal ....................................................................3,00 ‘‘

Velocidade ..........................................................10 nós

Como meio propulsor principal dispunha de uma máquina compound de 30 HP.

Em Setembro de 1888 deslocou-se a Sevilha e a Gibraltar iniciando um período ao serviço da Família Real até que, em 1896, o Rei D. Carlos decidiu utilizá-lo na sua primeira campanha oceanográfica. O iate Amélia, que para a História seria designado de primeiro de uma série de mais três que lhe sucederiam com o mesmo nome, foi então apetrechado com equipamentos com vista à realização de sondagens, dragagens e pesca. A fim de prestar apoio à realização destas campanhas oceanográficas procedeu-se entretanto à montagem, em Cascais, de um laboratório dispondo de aquários de água corrente. Entre o equipamento instalado a bordo contava-se com uma linha de sonda de 1.500 metros, termómetros de inversão, modelo Negretti-Zambra e Chabaud, garrafas para recolha de amostras de água a várias profundidades e densímetros.

Uma campanha oceanográfica pressupunha a realização de estações, pontos onde se procedia às observações e às colheitas. Inicialmente em cada estação sondava-se para conhecer a batimétrica e calcular a profundidade a que se iria proceder às colheitas. Seguia-se a recolha de água para futuras análises e medição das respectivas temperaturas, finalizando as operações com as recolhas biológicas e de sedimentos do fundo do mar.

A campanha, iniciada em 1 de Setembro de 1896, teve em vista determinar a fauna piscícola existente na extensão de lodos junto aos aluviões do rio Tejo, o estudo da que se localizava em áreas mais profundas de origem oceânica, nas regiões abissais na zona do Cabo Espichel, as espécies localizadas no litoral junto à baía de Cascais e Porto de Setúbal e, em simultâneo, o estudo da fauna pelágica superficial ou seja, o plâncton. Para o efeito procedeu-se a sondagens até 1.500 metros, a séries de dragagens até 600 metros, pesca à linha a grandes profundidades e observações no domínio da oceanografia física. A este respeito, procurou-se determinar a direcção da corrente na costa portuguesa, recorrendo-se a flutuadores que foram lançados a partir da canhoneira Mandovi.

Durante esta campanha foram lançados espinheis até 1.700 metros de profundidade, ao largo do Cabo Espichel, a cerca de 8 milhas de distância, tendo os lances resultado na captura de espécies marinhas então pouco conhecidas como o Aphanopus Carbo Lowe, nome científico de um peixe-espada considerado raríssimo. Outros espécimes foram recolhidos como novas espécies de solhas, esponjas, comatulas, esqualos e abróteas. Entre as Berlengas e a Ponta de Sines foram caçadas 47 espécies de aves marítimas, algumas delas até então desconhecidas.

Das recolhas efectuadas, tanto em espécies piscícolas como ornitológicas, foram constituídas colecções devidamente organizadas e catalogadas, sendo os exemplares acondicionados em frascos apropriados ou embalsamados consoante os casos, encontrando-se muitos deles presentemente expostos ao público no Aquário Vasco da Gama, criado pelo monarca em 1898.

No decorrer desta campanha oceanográfica o Rei constatou que o navio, se bem que oferecesse algumas vantagens para o trabalho costeiro devido à fácil manobra e diminuto calado, ao largo sofria forte balanço o que muito limitava as operações a bordo, situação que se agravava dado o diminuto espaço no convés para trabalhar no manuseamento do material. Nestes termos, D. Carlos ordenou a compra de outro navio ligeiramente maior, escolha essa que veio a recair no Fan Geraldine navio que foi adquirido em 1897 por troca com o Amélia I.

Pese embora terem existido anteriormente outros navios que foram ocasionalmente utilizados na realização de trabalhos hidrográficos, foi este iate real Amélia I o primeiro navio devidamente equipado com a finalidade de prestar apoio a operações desse tipo devidamente planeadas, concretamente a Campanha Oceanográfica de 1896, a primeira no mar português feita por portugueses e em navio português.

 

Fonte: Revista da Armada, n.º 452, Maio 2011.